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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Criatividade (in)útil

Conheço milhares (ok, muitas) pessoas criativas. Muitas delas geniais. Já outras, nem tanto. Acontece que venho me perguntando há algum tempo sobre a utilidade da criatividade. Mais que isso, sobre a aplicação destes pequenos milagres de pensamentos.

Trabalho com comunicação e, por conta disso, tenho mais exemplos sobre a inútil criatividade neste campo. Contudo, em conversas com amigos de diversas outras especialidades, foi fácil identificar o mesmo problema. Mais: não falamos somente sobre a inutilidade da criatividade no trabalho, mas na vida.

A questão é: todo mundo é muito criativo quando trata-se de criatividade inútil. O difícil é ser criativo dentro de possibilidades (e, muitas vezes, regras) reais de aplicação. Veja um exemplo caseiro de criatividade inútil, com o único propósito de, talvez, gerar algumas risadas.

Na infância do Inconsequente aqui, desenvolvi em parceria com outro amigo de exemplar criatividade inútil, uma empresa com diversos produtos para ajudar a melhorar a vida das pessoas. A famigerada Joinha's Corporation era uma empresa assaz inovadora. Os principais sucessos de seu portfólio eram (se não me falha a memória):

As milagrosas pílulas para matar a sede! O segredo é administrar uma pílula com dois copos de água a cada hora para acabar de uma vez por todas com os problemas relacionados à sede.

Caso as pílulas não funcionassem, o indicado era adquirir a água em pó. Bastava colocar o pó em um copo e adicionar água. Puft! A mágica acontecia: água cristalina no copo.

Disk-velório: para pessoas sozinhas no mundo, quando morresse alguém querido (inclusos celebridades e ex-BBBs) e não houvesse ninguém para o consolo, a Joinha's Corporation disponibilizava o disk-velório para o transeunte ouvir um minuto de silêncio para se reconfortar. Tocante, não?

Havaianas Sociais. É aquele traje que você sempre pediu a Deus para poder usar no trabalho. O produto vem acompanhado da Bermuda Social e da Regata Social.

A Joinha's Corporation continua sendo a mais inovadora empresa de que tenho notícia. E continua recebendo prêmios e mais prêmios na categoria criatividade inútil. Portanto, deste tema, falo com conhecimento de causa. Até o nome do blog é uma alusão à capacidade criativa e, por vezes inconsequente, deste que escreve.

Muitos estão dentro da esfera da criatividade inútil e sentem-se injustiçadas pelo mundo por suas ideias não saírem do papel. Quantas vezes você teve a melhor iluminação do mundo para ficar milionário antes de dormir e, ao acordar, simplesmente percebeu que aquilo não fazia o menor sentido? Isso, claro, quando lembrava da "genial" ideia. Quantos arroubos e precipitações você não presenciou no trabalho, com aquele colega dando a ideia mais incrível do mundo na opinião dele e da mãe dele para resolver o problema da vez?

Agora, imagine quantas vezes você se deparou com uma ideia incrivelmente simples e pensou: "Meu Deus! Como não pensei nisso antes?". Como algumas das sacadas deste link, por exemplo. Alias, o próprio blog já tratou do encanto da simplicidade em um post não muito antigo.

Por isso fica aqui a admiração e o apoio deste blog às pessoas verdadeiramente criativas. Aquelas que não precisam criticar o sistema, relevar os paradigmas e desmerecer as convenções para bolar algo de útil. Afinal, é mais difícil ser criativo dentro dos padrões pré-estabelecidos e que, por algum motivo estão lá para se fazer valer.

Claro, esta posição não é um apoio às amarras que encontramos em nosso cotidiano, mas um desafio para ser mais, dentro do mesmo.
 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre Tintim, devaneios e solidão

Hoje fui ao cinema sozinho. Há muitos anos que não fazia isso. Para ser sincero, desde que fui assistir ao Titanic pela terceira vez. Foi uma sensação estranha entrar em um lugar em que era comum estar sempre acompanhado. Havia pouca gente. Pudera, por mais que seja uma véspera de feriado, o filme começava as quinze para as seis. Resolvi assistir de última hora, depois de uma estafante reunião de trabalho.

Em cima da hora, compro minha entrada, providencio um combo recompensador de pipoca, refri e balas de goma. Tradicional. Escolho cuidadosamente o lugar no cinema, diferente do canto que sento há anos. Mais algumas pessoas entram na sala, mas ainda assim fico com a impressão de estar ali sozinho. Solidão e ansiedade tomam meu corpo.

As luzes diminuem, a mensagem de segurança do cinema é exibida. Fico apreensivo. Tintim, meu companheiro de infância, me aguardava pacientemente atrás dos trailers que teimavam em não acabar, ao contrário do nível da pipoca que, neste momento, já correspondia aos créditos.

Inicia-se, finalmente. É possível perceber, logo nos primeiros segundos do filme, que trata-se de uma obra de arte. Cada fio de cabelo, cada característica dos personagens iam aflorando cristalinamente em minha memória. Com as lembranças, vinham também milhares de sentimentos que estavam guardados e esquecidos dentro de mim. Por mais que conhecesse a história de cabo a rabo, a cada fala, a cada cena e a cada detalhe revelado, uma parte da infância e, principalmente, daquela pessoa que eu tanto gostava de ser e que, contra a minha vontade, foi se modificando aos poucos, vinha à tona.

No desenrolar do filme, me peguei tão à vontade que parecia estar assistindo ao desenho na minha antiga casa, na TV de madeira, depois da memorável sequência da TV cultura na época: Glub-Glub, Rá-Tim-Bum, Anos Incríveis, Mundo de Beakman, Castelo Rá-Tim-Bum e, finalmente, Tintim.

Duas horas se passaram como minutos. Não é exagero dizer que Tintim está muito acima de outros heróis. Ao contrário de Harry Potter, ele não usa magia. Não precisou de mutações genéticas, como Hulk e Homem Aranha. Não se beneficia da tecnologia, como o Homem de Ferro. Tudo o que ele usa é a inteligência e a coragem.

Acaba o filme e a fica a sensação: Já? Cadê a continuação? Depois do fim dos créditos, já sem ninguém na sala, me conformei e pus-me no caminho de casa.

Como o ônibus estava demorando, me flagrei em um dos meus milhares de devaneios diários. Pensava em como ir ao cinema sozinho foi bom. Em como o sentimento de solidão está somente, e tão somente, dentro de nós. Em nenhum momento durante o programa, me senti sozinho. A liberdade de estar lá só para satisfazer a minha própria vontade me fez perceber que a solidão é uma opção que escolhemos, e não uma condição que nos é imposta.

Jamais estamos sozinhos. Carregamos sempre a melhor e mais sincera companhia que podemos ter: nós mesmos. O papo de que "é impossível ser feliz sozinho", como já dizia o poeta, é verdade até a página dois. Diria que, no caminho para ser feliz, está a felicidade em saber apreciar a própria companhia. Neste caso, a solidão é uma questão de perspectiva.

Só então, a partir da autovalorização é que os portões da felicidade se abrem. Claro, pois não reside em um terceiro a decisão, o peso e a responsabilidade de conceder a felicidade. Essa tarefa já foi cumprida, um passo antes, por quem de fato e de direito responde por ela: nós mesmos.

Pense, ainda sobre o exemplo do filme. Tintim é, basicamente, sozinho. Ninguém, além de seu cachorro Milu, faz parte do seu convívio diário. Sim, ele conta com amigos como Capitão Haddock e os atrapalhados Dupont e Dupont. Mas não depende deles para seguir em frente.

Por fim, chego à conclusão que assistir ao filme sozinho não foi bom somente para me abrir os olhos para algo que até então julgava ser o retrato da solidão. Assistir Tintim sozinho foi, sem sombra de dúvidas, o melhor e mais profundo mergulho que dei dentro de mim.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Chocante simplicidade

É curioso observar que quanto mais o tempo passa, mais complexas as coisas e suas composições ficam.  A tecnologia e os sentimentos, representando o antagonismo, dão a impressão de que não há limites para a ciência do "complicômetro".

Atualmente nada mais choca. Aliás, na arte, por exemplo, o último que fez isso foi Marcel Duchamp e o seu famoso mictório. A partir de lá, estamos em uma busca incessante por choques e mais choques de diferentes naturezas e culturas, que foram se sucedendo de modo a criar um efeito em cadeia, fazendo com que hoje não nos choquemos mais.

Os artistas, sinto dizer, pouco ou nada chocam. Claro, estamos falando daqueles cujo propósito é chocar. A nudez já não é um escândalo. Pinturas, tampouco. Músicas delatoras, já não fazem mais sucesso. Nem mesmo aquelas cujo mote principal é sexo e palavrão.

Voltando ao assunto, hoje o calo das pessoas com está muito grande. O choque com atitudes, discursos, e as artes em geral, já entrou em uma preocupante e irreparável banalização. Isso impede que assuntos verdadeiramente importantes (e chocantes) como a política e seus desdobramentos, por exemplo, sejam ignorados. Os choques que sofremos foram tantos e tão frenéticos que nos tornou passivos, conformados com situações que deveriam ser inaceitáveis.

Sabendo que tudo não é nada mais do que um ciclo, atualmente o que choca são as coisas verdadeiramente simples. Vemos casamentos rebuscados, festas estonteantes, comidas cheias de frufrus, computadores com games incríveis. Mas o que lembramos é daquele namorico de portão, da reunião não planejada com os amigos, do arroz com feijão da mãe e a emoção do esconde-esconde. Tudo, além de não depender da tecnologia, era de graça.

Por isso, faço mea-culpa aqui e retifico o dito acima: não é a simplicidade que choca.

A simplicidade encanta.

No fim, fica o apelo: vamos parar de tentar chocar. O choque já nos foi muito útil em outros tempos. Em meio a um turbilhão de emoções, informações e inovações, o que faz a diferença é a simplicidade genuína e sincera, que não precisa de rococós para acontecer e encantar.