terça-feira, 13 de março de 2012

Pausa para leitura: Quem pega Pelé?

Tenho comentado muito pouco sobre futebol aqui neste espaço, admito. Afinal, é um dos meus temas favoritos... E nesse contexto, publico aqui um texto extremamente lúcido do Juca Kfouri, a respeito de um tema que rende horas e horas de discussão: afinal, como comparar Pelé e Lionel Messi?

A "problemática", ao meu ver, é comparar dois jogadores geniais atuando em épocas e realidades diferentes. No entanto, Juca faz algumas ponderações que são válidas em ambas as épocas. Veja e tire suas próprias conclusões.


"Quem pega Pelé?
Sim, Lionel Messi pode até ficar maior que Pelé. Mas terá uma longa caminhada pela frente
PELÉ É AINDA incomparável.
Por mais que seja uma tendência quase invencível não há como comparar o extraordinário Lionel Messi, candidato a Atleta do Século 21, com o Atleta do Século 20.
Basta dizer que, aos 24 anos, em sua oitava temporada, Pelé já havia marcado 675 gols, contra 252 do argentino com a mesma idade e o mesmo número de temporadas.
O Rei ganhara 21 títulos contra 19 do craque do Barcelona e havia marcado seis gols em duas Copas do Mundo, das quais saiu campeão, contra as mesmas duas de Messi, com apenas um gol e nenhum pódio.
Mas o que importa aqui é menos comparar aquilo que é coletivo. Porque, se o Barcelona de Messi já está no mesmo patamar do Santos de Pelé -e em matéria de títulos em clubes é bem possível que o hermano ultrapasse o Rei-, a seleção brasileira de 1958/62 era muito superior à argentina defendida pelo Pulga.
Veja, no entanto, que a diferença no número de gols é abissal. Pelé marcou 675 gols em 571 jogos, média de 1,18, contra 252 em 379, média de 0,66.
E que não se diga, por mentira histórica, que era mais fácil fazer gols nos tempos de Pelé e que mais fácil ainda era marcá-los no Campeonato Paulista, não só porque times como os da Ferroviária, do Guarani, da Ponte Preta, eram melhores que os atuais do Racing Santander, do Zaragoza, do Villarreal, como porque Pelé vivia fazendo gols nos campeões europeus nas estrepitosas excursões do Santos, assim como os fez na Copa do Mundo.
Basta dizer que, só no Benfica, nos dois jogos que decidiram o Mundial de Clubes de 1962, ele fez cinco dos oito gols praianos nas vitórias por 3 a 2, no Maracanã, e por 5 a 2, no Estádio da Luz. E que, três anos antes, fizera dois na goleada (5 a 1) sobre o Barcelona, campeão espanhol, no Camp Nou.
E que fique claro que nenhum saudosismo move tais constatações, até porque aqui se dá de barato que Messi poderá superar Pelé.
E que nem precisará ser mais campeão que ele para tanto, mas, apenas (?!!!) manter por mais 13 anos este pique admirável, além de crescer em sua já fabulosa eficácia.
No quesito títulos, Messi já deixou para trás Maradona, que não ganhou nada de importante até os 24 anos. E já quase empata com ele na média de gols, que é de 0,68, fruto de 182 gols em 264 jogos. Diego, como Garrincha, era mais espetacular.
Mas todos ainda são súditos do Rei."
Clicando aqui você pode ver o post diretamente no Blog do Juca

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Eu perdôo mas não esqueço"

Essa frase ficou martelando na minha mente por meses. Ouvi de bicão em uma conversa alheia, enquanto estacionava o carro na garagem. Fiquei pensando sobre o assunto, se concordava com a máxima ou se a desprezava. Afinal, perdoar é esquecer?

Optei pelo desprezo logo de início. Como seria possível perdoar alguém por algo que tenha feito sem esquecer completamente o que desencadeou a necessidade do perdão? Não me parece lógico. Afinal, o perdão tem a ver com confiança. Como confiar novamente, perdoar alguém, tendo na memória a cena que trouxe à tona todas as perguntas sobre a idoneidade e a validade de perdoar?

A dialética grita, acenando que, se você não é capaz de esquecer, não é capaz de perdoar. Seja lá o que for: o não recebido, o maltrato sofrido, a má educação tolerada, a agressão suportada.

Contudo, depois da fase fundamentalista sobre o tema, também cheguei à conclusão que perdoar sem esquecer é possível. Veja o recente caso ocorrido na cidade de Cunha (matéria aqui e vídeo aqui).  Como esquecer um acontecimento dessa proporção? Impossível. Mas, pelo depoimento do Sr. José Benedito de Oliveira, é possível perdoar sem esquecer. Contudo é necessário um tanto de evolução pessoal para conseguir tal feito.

Ainda assim, insisto que, por mais que seja difícil de esquecer determinadas coisas, o perdão completo (se é que isso existe) só se dá quando a lembrança indesejável já não existe mais. Afinal, a natureza humana está pronta para a qualquer momento resgatar o acontecido e utilizar contra quem realizou o ato.

Ou seja, acredito que é dever daquele que diz ter perdoado, mesmo que não tenha esquecido, agir de modo digno, nunca mais tocando no assunto. O perdão é a alforria do culpado e a altivez do ferido.

Por isso considero aqueles que conseguem perdoar verdadeiramente e, se possível, esquecer, seres evoluídos. Quem sabe, um dia, chegamos lá.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Criatividade (in)útil

Conheço milhares (ok, muitas) pessoas criativas. Muitas delas geniais. Já outras, nem tanto. Acontece que venho me perguntando há algum tempo sobre a utilidade da criatividade. Mais que isso, sobre a aplicação destes pequenos milagres de pensamentos.

Trabalho com comunicação e, por conta disso, tenho mais exemplos sobre a inútil criatividade neste campo. Contudo, em conversas com amigos de diversas outras especialidades, foi fácil identificar o mesmo problema. Mais: não falamos somente sobre a inutilidade da criatividade no trabalho, mas na vida.

A questão é: todo mundo é muito criativo quando trata-se de criatividade inútil. O difícil é ser criativo dentro de possibilidades (e, muitas vezes, regras) reais de aplicação. Veja um exemplo caseiro de criatividade inútil, com o único propósito de, talvez, gerar algumas risadas.

Na infância do Inconsequente aqui, desenvolvi em parceria com outro amigo de exemplar criatividade inútil, uma empresa com diversos produtos para ajudar a melhorar a vida das pessoas. A famigerada Joinha's Corporation era uma empresa assaz inovadora. Os principais sucessos de seu portfólio eram (se não me falha a memória):

As milagrosas pílulas para matar a sede! O segredo é administrar uma pílula com dois copos de água a cada hora para acabar de uma vez por todas com os problemas relacionados à sede.

Caso as pílulas não funcionassem, o indicado era adquirir a água em pó. Bastava colocar o pó em um copo e adicionar água. Puft! A mágica acontecia: água cristalina no copo.

Disk-velório: para pessoas sozinhas no mundo, quando morria alguém querido (inclusos celebridades e ex-BBBs) e não havia ninguém para o consolo, a Joinha's Corporation disponibilizava o disk-velório para o transeunte ouvir um minuto de slêncio para se reconfortar. Tocante, não?

Havaianas Sociais. É aquele traje que você sempre pediu a Deus para poder usar no trabalho. O produto vem acompanhado da Bermuda Social e da Regata Social.

A Joinha's Corporation continua sendo a mais inovadora empresa de que tenho notícia. E continua recebendo prêmios e mais prêmios na categoria criatividade inútil. Portanto, deste tema, falo com conhecimento de causa. Até o nome do blog é uma alusão à capacidade criativa e, por vezes inconsequente, deste que escreve.

Muitos estão dentro da esfera da criatividade inútil e sentem-se injustiçadas pelo mundo por suas ideias não saírem do papel. Quantas vezes você teve a melhor iluminação do mundo para ficar milionário antes de dormir e, ao acordar, simplesmente percebeu que aquilo não fazia o menor sentido? Isso, claro, quando lembrava da "genial" ideia. Quantos arroubos e precipitações você não presenciou no trabalho, com aquele colega dando a ideia mais incrível do mundo na opinião dele e da mãe dele para resolver o problema da vez?

Agora, imagine quantas vezes você se deparou com uma ideia incrivelmente simples e pensou: "Meu Deus! Como não pensei nisso antes?". Como algumas das sacadas deste link, por exemplo. Alias, o próprio blog já tratou do encanto da simplicidade em um post não muito antigo.

Por isso fica aqui a admiração e o apoio deste blog às pessoas verdadeiramente criativas. Aquelas que não precisam criticar o sistema, relevar os paradigmas e desmerecer as convenções para bolar algo de útil. Afinal, é mais difícil ser criativo dentro dos padrões pré-estabelecidos e que, por algum motivo estão lá para se fazer valer.

Claro, esta posição não é um apoio às amarras que encontramos em nosso cotidiano, mas um desafio para ser mais, dentro do mesmo.
   

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre Tintim, devaneios e solidão

Hoje fui ao cinema sozinho. Há muitos anos que não fazia isso. Para ser sincero, desde que fui assistir ao Titanic pela terceira vez. Foi uma sensação estranha entrar em um lugar em que era comum estar sempre acompanhado. Havia pouca gente. Pudera, por mais que seja uma véspera de feriado, o filme começava as quinze para as seis. Resolvi assistir de última hora, depois de uma estafante reunião de trabalho.

Em cima da hora, compro minha entrada, providencio um combo recompensador de pipoca, refri e balas de goma. Tradicional. Escolho cuidadosamente o lugar no cinema, diferente do canto que sento há anos. Mais algumas pessoas entram na sala, mas ainda assim fico com a impressão de estar ali sozinho. Solidão e ansiedade tomam meu corpo.

As luzes diminuem, a mensagem de segurança do cinema é exibida. Fico apreensivo. Tintim, meu companheiro de infância, me aguardava pacientemente atrás dos trailers que teimavam em não acabar, ao contrário do nível da pipoca que, neste momento, já correspondia aos créditos.

Inicia-se, finalmente. É possível perceber, logo nos primeiros segundos do filme, que trata-se de uma obra de arte. Cada fio de cabelo, cada característica dos personagens iam aflorando cristalinamente em minha memória. Com as lembranças, vinham também milhares de sentimentos que estavam guardados e esquecidos dentro de mim. Por mais que conhecesse a história de cabo a rabo, a cada fala, a cada cena e a cada detalhe revelado, uma parte da infância e, principalmente, daquela pessoa que eu tanto gostava de ser -e que, contra a minha vontade, foi se modificando aos poucos, vinha à tona.

No desenrolar do filme, me peguei tão à vontade que parecia estar assistindo ao desenho na minha antiga casa, na TV de madeira, depois da memorável sequência da TV cultura na época: Glub-Glub, Rá-Tim-Bum, Anos IncríveisMundo de Beakman, Castelo Rá-Tim-Bum e, finalmente, Tintim.

Duas horas se passaram como minutos. Não é exagero dizer que Tintim está muito acima de outros heróis. Ao contrário de Harry Potter, ele não usa magia. Não precisou de mutações genéticas, como Hulk e Homem Aranha. Não se beneficia da tecnologia, como o Homem de Ferro. Tudo o que ele usa é a inteligência e a coragem.

Acaba o filme e a fica a sensação: Já? Cadê a continuação? Depois do fim dos créditos, já sem ninguém na sala, me conformei e pus-me no caminho de casa.

Como o ônibus estava demorando, me flagrei em um dos meus milhares de devaneios diários. Pensava em como ir ao cinema sozinho foi bom. Em como o sentimento de solidão está somente, e tão somente, dentro de nós. Em nenhum momento durante o programa, me senti sozinho. A liberdade de estar lá só para satisfazer a minha própria vontade me fez perceber que a solidão é uma opção que escolhemos, e não uma condição que nos é imposta.

Jamais estamos sozinhos. Carregamos sempre a melhor e mais sincera companhia que podemos ter: nós mesmos. O papo de que "é impossível ser feliz sozinho", como já dizia o poeta, é verdade até a página dois. Diria que, no caminho para ser feliz, está a felicidade em saber apreciar a própria companhia. Neste caso, a solidão é uma questão de perspectiva.

Só então, a partir da autovalorização é que os portões da felicidade se abrem. Claro, pois não reside em um terceiro a decisão, o peso e a responsabilidade de conceder a felicidade. Essa tarefa já foi cumprida, um passo antes, por quem de fato e de direito responde por ela: nós mesmos.

Pense, ainda sobre o exemplo do filme. Tintim é, basicamente, sozinho. Ninguém, além de seu cachorro Milu, faz parte do seu convívio diário. Sim, ele conta com amigos como Capitão Haddock e os atrapalhados Dupont e Dupont. Mas não depende deles para seguir em frente.

Por fim, chego à conclusão que assistir ao filme sozinho não foi bom somente para me abrir os olhos para algo que até então julgava ser o retrato da solidão. Assistir Tintim sozinho foi, sem sombra de dúvidas, o melhor e mais profundo mergulho que dei dentro de mim.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Chocante simplicidade

É curioso observar que quanto mais o tempo passa, mais complexas as coisas e suas composições ficam.  A tecnologia e os sentimentos, representando o antagonismo, dão a impressão de que não há limites para a ciência do "complicômetro".

Atualmente nada mais choca. Aliás, na arte, por exemplo, o último que fez isso foi Marcel Duchamp e o seu famoso mictório. A partir de lá, estamos em uma busca incessante por choques e mais choques de diferentes naturezas e culturas, que foram se sucedendo de modo a criar um efeito em cadeia, fazendo com que hoje não nos choquemos mais.

Os artistas, sinto dizer, pouco ou nada chocam. Claro, estamos falando daqueles cujo propósito é chocar. A nudez já não é um escândalo. Pinturas, tampouco. Músicas delatoras, já não fazem mais sucesso. Nem mesmo aquelas cujo mote principal é sexo e palavrão.

Voltando ao assunto, hoje o calo das pessoas com está muito grande. O choque com atitudes, discursos, e as artes em geral, já entrou em uma preocupante e irreparável banalização. Isso impede que assuntos verdadeiramente importantes (e chocantes) como a política e seus desdobramentos, por exemplo, sejam ignorados. Os choques que sofremos foram tantos e tão frenéticos que nos tornou passivos, conformados com situações que deveriam ser inaceitáveis.

Sabendo que tudo não é nada mais do que um ciclo, atualmente o que choca são as coisas verdadeiramente simples. Vemos casamentos rebuscados, festas estonteantes, comidas cheias de frufrus, computadores com games incríveis. Mas o que lembramos é daquele namorico de portão, da reunião não planejada com os amigos, do arroz com feijão da mãe e a emoção do esconde-esconde. Tudo, além de não depender da tecnologia, era de graça.

Por isso, faço mea-culpa aqui e retifico o dito acima: não é a simplicidade que choca.

A simplicidade encanta.

No fim, fica o apelo: vamos parar de tentar chocar. O choque já nos foi muito útil em outros tempos. Em meio a um turbilhão de emoções, informações e inovações, o que faz a diferença é a simplicidade genuína e sincera, que não precisa de rococós para acontecer e encantar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Trabalhando a velocidade interna

De tempos em tempos, algumas coisas chamam a atenção em momentos absolutamente inusitados. O último insight foi durante uma palestra, em uma convenção da empresa. Uma frase do renomado palestrante ecoou nos ouvidos e fez o mais absoluto sentido. Ele disse que, segundo a psicologia, temos que manter a nossa velocidade interna baixa.

Não sou psicólogo e tampouco pretendo aqui explicar o que este termo significa em sua literalidade. Vou me limitar a dizer que o termo tem um sentido incrivelmente verdadeiro quando pensamos em todas as esferas da vida.

Todas as decisões - profissionais e pessoais - que tomei quando estava com a tal velocidade interna baixa foram acertadas. Os meus maiores sucessos se relacionam com esse "estado de espírito". Se você pensar um pouco a respeito, é provável que chegue à mesma conclusão.

Sou assumidamente apressado e extrovertido, e apontado como hiperativo. Muitas vezes as minhas palavras não conseguem acompanhar o meu pensamento, e por isso, às vezes chego a gaguejar. Por isso tive facilidade de enxergar o benefício de ter a velocidade interna reduzida para tomar decisões.

A calma, o raciocínio lógico, a frieza e o bom senso trabalham em perfeita harmonia quando estamos na condição de velocidade interna baixa. Isso favorece decisões corretas, diminuindo drasticamente as chances de arrependimento.

No fim das contas, o aprendizado é constante e a velocidade interna varia de acordo com os nossos sentimentos e as urgências do dia a dia. Contudo, a partir de agora, a consciência sobre a velocidade interna já existe e, portanto, utilizar esse subterfúgio ao nosso favor pode fazer diferença.

Trabalhar esse controle de velocidade não tem sido, nem de longe, fácil. E não há fórmula para tal. Ao mesmo tempo, não deve ser mentalmente saudável permanecer sempre em velocidade interna baixa. Neste caso o equilíbrio também deve se fazer presente, mas o descontrole não.

A ideia não é construir um robô envolto em racionalidade e frieza, mas diminuir as chances de precipitação que tanto atrapalha os nossos pequenos passos. Afinal, o imponderável pode ser delicioso, desde que estejamos prontos para lidar com ele.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As lentes, a neblina e a pausa mental

"No final de todo banho eu desligo a água quente e deixo correr a água fria. 
Ficar sob essa ducha gelada por alguns minutos libera minha mente de tudo - das coisas boas e ruins. Isso me dá uma pausa mental, porque é o corpo que lida com o estado de desconforto, e zerar a mente me ajuda a lembrar que eu consigo passar por qualquer coisa"
Marcus Luttrell, ex SEAL da Marinha Norte-Americana.


Nesta madrugada fiz uma burrada aconteceu algo que me deixou com a sensação de "como fui capaz?":

Contexto: dormi na sala, assistindo TV. Normal. Fui dormir no quarto no meio da noite, naquele momento em que você se assemelha mais a um zumbi do The Walking Dead, se arrastando pela casa com medo de dar aquela topada no dedinho do pé. Continuo meu sono na cama. Em alguns instantes, acordo com os olhos lacrimejando: - "Pqp! Esqueci de tirar as lentes de contato". Sou quase um Mr. Magoo sem elas e, por vezes, consigo me esquecer de retirá-las antes de deitar. Ontem não foi diferente.

Fui até o banheiro, peguei o estojo das lentes, retirei o objeto incômodo dos meus olhos e guardei novamente o estojo em seu lugar. Em uma privação total de sentidos, por algum motivo que não sei dizer qual é (talvez seja por sonambulismo), recomecei o processo de retirada das lentes de contato, já as tendo retirado. Não sei como, mas não consegui raciocinar de modo a me lembrar que já havia resolvido o problema.

Com a ideia fixa na cabeça de que eu tinha que dormir, mas antes disso, tirar as lentes, continuei insistindo em tentar tirar algo que já não existia. Depois de uns bons minutos, o desespero começou a tomar conta, afinal, por que raios aquela lente havia grudado nos meus olhos? As iniciativas iam tornando-se cada vez mais desesperadas: colírio não resolvia. Soro fisiológico, tão pouco. Esfregar as pálpebras, cada vez com mais força, também não fazia a lente se movimentar, perfeitamente encaixada sobre a íris que estava.

As minhas técnicas de retirada iam tornando-se cada vez mais radicais. O movimento natural que aprendi a fazer para tirar as lentes  - puxar os olhos até virar japonês, piscar e pronto: a lente pula - já não funcionava. Quanto mais "japonês" eu ficava, mais a lente grudava. Nesse momento, os meus olhos já estavam pra lá de irritados e inchados. Tentei a técnica tradicional: puxá-la de dentro dos olhos com os dedos: mais um fracasso, e mais irritação.

- "Não é possível!" pensava eu, já ofegante, lá pelas 3h da madrugada. Numa tentativa desesperada de desgrudar as - inexistentes - lentes, peguei um cotonete e comecei a esfregá-lo em meus olhos, na esperança de sentir as lentes se mexendo. Mais uma vez, frustração. Eu já pensava no pior, em pegar o carro e correr para o pronto socorro por causa da bendita lente que não me deixava em paz. Cogitei estar participando dos Jogos Mortais (sim, O Inconsequente aqui é exagerado).

Em um momento, já cansado e conformado em me trocar e ir com os olhos inchados e machucados para o hospital, olho em cima da pia. Ainda não havia guardado o estojo. Para a minha surpresa, no estojo aberto, estavam, cada uma em seu lugar, as lentes. Nesse momento percebi de que tudo o que eu vinha fazendo - e sofrendo -  até aquela hora era em vão. Depois de pensar o quanto eu tinha me precipitado, peguei uma bolsa de gelo e um pano, e dormi com a compressa gelada sobre meus olhos até o despertador tocar.

Pensei nesse episódio hoje o dia todo, e lembrei-me da citação que abre este post. Às vezes não conseguimos nos dar um tempo para desligar de tudo aquilo que está a nossa volta e pensar somente no que de fato acontece, no concreto, no real. Estamos acostumados a nos manter em uma confortável neblina, onde somos os senhores dos acontecimentos. Muitas vezes essa mesma neblina, criada por nós, faz com que não enxerguemos o óbvio.

A pausa mental, principalmente diante dessa enxurrada de informações e velocidade em que nos encontramos hoje, é essencial. Ela pode nos dar ao menos uma noção de caminho, de calma, de bom senso. Por isso, caro Marcus Luttrell, vou me apropriar do seu hábito até encontrar a melhor forma de me dar uma pausa mental. Pode ser que eu durma de lentes novamente.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um comentário sobre Belo Monte e Reinaldo Azevedo

Depois de muitas coisas ditas e não ditas sobre a usina de Belo Monte, acabei lendo a opinião de um renomado jornalista, Reinaldo Azevedo, sobre toda essa história (clique aqui e leia o texto). Li com muita calma o seu post, e escrevo aqui (como fiz nos comentários), a minha opinião direcionada ao jornalista, em primeiro lugar, sobre o texto, e em segundo lugar, sobre Belo Monte.

Recomendo que leia primeiro o post dele, para depois chegar às minhas observações sobre. E depois, coloque seus pontos.


Compreendo seu ponto de vista, caro Reinaldo.

Contudo, sinto em seu texto muitas das críticas que você mesmo dirigiu à iniciativa.

Você me pareceu tão "dono da verdade" quanto aqueles que condena.

Uma das coisas que me incomoda é o seu pensamento exclusivamente matemático. Em sua essência, a lógica matemática não considera a relação humana. É uma análise fria (válida) da situação, concorda?

Deste pressuposto, a observação sobre proporção territorial, as considerações sobre remoção da população ribeirinha, capacidade de geração de energia e etc, não avalia aspectos que, em minha opinião (e de muitos impactados com a campanha) são fundamentais:

1. A vida
2. O precedente

Explico: ao "desmerecer" a quantidade do território destinado aos indígenas (não falo de desalojamento, já que defende a ideia de que nenhum indígena será afetado) você está dando de ombros para uma questão primordial: o respeito à vida. "Pobres indígenas, mal sabem as maravilhas do conforto da vida moderna", leio nas entrelinhas de seu - arrogante - texto. Já parou para pensar que os mesmos indígenas podem pensar "pobres homens brancos, não sabem respeitar o ambiente onde vivem...".

Compreender o outro lado da moeda, prezado Reinaldo, chama-se empatia. Está cada vez mais difícil de conseguir essa façanha hoje em dia. Pelo que pude perceber, você não conseguiu neste caso.

Segundo ponto: precedente. Muitas ações equivocadas são tomadas pelo fato de haver precedentes que, em teoria, justificam a recorrência de um erro, seja ele ambiental, social ou de qualquer outra natureza. Não é preciso ir muito longe para atestar isso.

É importante ponderar: você, ao utilizar técnicas que muitos dos colegiados em direito se utilizam, desmerece os interlocutores que trouxeram a mensagem em questão à tona. Se não era do seu interesse saber quem eram as pessoas, seria muito melhor omitir esse fato ao invés de reforçá-lo, como forma de diminuir a importância daqueles que tentam chamar a atenção para a causa.

"Ah, mas mesmo com tudo isso, o Brasil precisa de energia para crescer economicamente, proporcionar melhores condições de vida aos pobres e etc...". Concordo. É importante sedimentar condições para que o país e sua economia prosperem, gerando mais facilidades para sua população. A pergunta que me permito fazer é: a que custo?

Talvez Belo Monte de fato não represente todo esse monstro que pintaram. Você baliza essa opinião muito competentemente com fatos e dados. Mas Belo Monte talvez represente o primeiro passo em direção à permissividade da prosperidade a qualquer custo.

Em minha opinião, se é que ela lhe interessa, ainda não sei. Não formei nenhum juízo sobre a questão. Posso dizer que fiquei sensibilizado com a causa das nobres personalidades que você diz não conhecer. Mas isso não tapa meus olhos e ouvidos para novas opiniões, como a sua.

O fato de eu concordar com você ou não, não me dá direito, em nenhuma instância, de ridicularizar sua postura. Contudo, se o objetivo era criar polêmica, você de fato, deve estar orgulhoso de si. Já se o objetivo do texto foi refutar os princípios do movimento, acredito que tenha lhe faltado tato.

Mais uma vez: respeito sua opinião, a ponto de me dar ao trabalho de te dizer que li cada palavra escrita. Mas não me dou ao direito de lhe ridicularizar por sua postura. Peço também que veja nos comentários de seu post (que são muitos), várias informações de pessoas que me parecem ter conhecimento de causa quando falamos sobre matrizes energéticas, meios de produção e consequências ambientais.

Espero que a discussão sobre Belo Monte continue fervorosa, pois é do interesse de todos nós. Que essas discussões não se atenham ao ridículo, mas à praticidade, viabilidade, interesses genuínos e posições responsáveis que se comprometam sim, com o crescimento do Brasil e com o conforto da população, mas que não desprezem o exemplo, a vida e o planeta.

Um abraço.


Atualização às 16h04 (25/11): o comentário acima, deixado por mim em seu blog, foi recusado pela moderação.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Médicos: os Deuses dos tempos modernos


Tenho tido algumas experiências com médicos que me fizeram pensar em algo que muita gente já diz por aí. Os médicos são os Deuses dos tempos modernos.

É terminantemente proibido questioná-los, pois do alto de sua sabedoria e sapiência infinita, não conseguem, em sua maioria, tratar com o mínimo de respeito aqueles que não são especialistas em medicina.

"Bom dia", "boa tarde", ou uma explicação decente sobre um tratamento, procedimento ou algo do tipo é um luxo de quem pode pagar pela sua consulta particular. Ou nem deles.

Ok, a generalização aqui tem um único intuito: gerar polêmica e contribuir para uma reflexão mais apurada sobre a atitude profissional de cada médico. O Inconsequente aqui, além de se consultar em vários deste tipo, já trabalhou em empresas de saúde com renomados doutores (e outros nem tanto assim).

Que os Deuses dos tempos modernos não venham alegar que a quantidade de pacientes é grande, que as condições de trabalho não são as ideais e etc. Isso, meus caros, chama-se realidade. Cada pessoa no nosso país tem suas próprias reclamações sobre as condições de seu trabalho, sobre seus salários e o que for. Não é um fardo somente de sua classe. Aceite. Reivindique. E trabalhe, como tantos outros.

Atitudes como educação, respeito, paciência deveriam ser pré-requisitos para o ingresso dessas pessoas no curso de medicina. Cuidado: não confunda uma reivindicação por mais zelo com criação de vínculos afetivos. Ninguém aqui está pedindo para que cada médico torne-se um amigo de infância de seus pacientes.

Já cansei de ouvir "causos" de populares que, por falta de informação (que deveria ser provida pelo seu médico) erraram a mão no tratamento, sofreram mais que o necessário e passaram por outras milhares de sortes de encrencas. Isso sem falar no desaforo que muitos sofrem somente ao esperar um atendimento (isso, quando o atendimento acontece). Não vou falar sobre o problema crônico da saúde pública por que este tema merece um post só dele.

Aqueles médicos que sabem tratar seus pacientes como pessoas e não como cobaias, acabam por destacar-se entre outros milhares de profissionais. Curioso, não é?

House é um ótimo estereótipo do que digo aqui. O cara é brilhante, mas não sabe ser gentil com uma formiga. Será o autor/criador da série foi tão inventivo a ponto de criar algo fantasioso ou será que, ao idealizar o seu protagonista, ele levou em consideração o sentimento comum para que sua série fosse um sucesso?

Não à toa, a palavra de ordem dos empresários da saúde é "Humanização". Até eles já perceberam. Agora, meus caros, é hora de colocar em prática.

Às exceções, perdão. Sei que vocês não irão se importar.

Por fim, uma sacada esperta do Inconsequente (pesquisei no Google, antes que venham dizer que copiei):
"A unanimidade é burra. E essa é uma opinião unânime."